O QUADRO FEZ DO MUNCAB UM TEMPLO: QUANDO A FAVELA SE MOVE, O RAP VIRA CULTO
No Pelourinho, uma noite de Hip Hop mostrou que a Favela não precisa estar fisicamente no Subúrbio para estar presente. Entre versos, memória, ancestralidade e muita energia, O Quadro transformou o MUNCAB em um verdadeiro culto à cultura.

Tem noites em Salvador que parecem ter sido planejadas pela própria cidade para lembrar a gente de que a cultura não pede licença para acontecer.
Na noite de domingo, dia 13, eu circulava por um Pelourinho agitado. Mas havia um ponto onde o negócio estava pegando fogo: o MUNCAB – Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira, no Centro Histórico.
Era uma noite musical com um recorte especial para o Hip Hop.
E aí eu pergunto: olhai aí se o Rap não é a Favela em movimento?
Logo na entrada, descobri que tinha acabado de acontecer o show do rapper Mr. Armeng, um amigo que a cultura colocou no meu caminho lá atrás, em 2015. Naquele ano, ele e o MC Kazpa ministraram duas oficinas de música em uma escola municipal do meu bairro. Quase onze anos depois, a vida tratou de cruzar nossos caminhos novamente e eu fiquei só no gosto de assistir esse show dessa vez.

Também encontrei dois amigos de longa data: o professor Mozart Estrela e Mannu Alves, gestores do programa de educação e ESG Mais Solidário Bolsas de Estudos. Ficamos por ali até começar o show de OQuadro.

E foi aí que a coisa mudou de frequência.
O show começou com uma atmosfera que, sinceramente, me lembrou um culto.
Os caras chegaram cantando louvores. E uma das primeiras mensagens dizia:
“Bem-aventurados os que não são estagnados... Benditos sejam os que evoluem.”
Pouco depois, Jef Rodriguez, o Rasta Palozzão, um dos vocalistas, olhou para aquele público enorme que ainda estava distante do palco e mandou a real:
“Estamos em Salvador... Não existe necessidade desse distanciamento. VAMO CHEGAR PRA FRENTE!”
Eu fui.
E não fui sozinho.
No meio da muvuca encontrei o fotógrafo e filmmaker @revolucionariosbs, acompanhado de Alana Amaral, que gentilmente cedeu as fotos para esta matéria.
Ali, diante do palco, a cidade estava representada.
Um jovem gritou:
“Do caralhooo!”
Era João, morador de Plataforma, no Subúrbio de Salvador — ou Platacity, como ele prefere chamar.
Também encontrei Deivisson, morador de Periperi. Aos 29 anos, ele contou que escuta Rap desde os 15, quando conheceu o trabalho de Ravi Lobo, do grupo Nova Era.
A definição dele sobre OQuadro foi direta:
“Os caras do Quadro são barril.”
E talvez seja exatamente aí que esteja a conexão com o Favelando.
OQuadro completa 30 anos em 2026 e nunca tocou no Subúrbio de Salvador.
Mas o suburbano conhece OQuadro.
Essa é a dicotomia que Salvador produz: universos que parecem distantes, mas que a cultura conecta o tempo inteiro.
O Hip Hop estava no Centro Histórico. O palco estava no MUNCAB. Mas a Favela estava ali.
Estava em Plataforma.
Estava em Periperi.
Estava nas histórias de quem começou a ouvir Rap ainda adolescente.
Estava nos corpos que finalmente chegaram para a frente do palco.
Estava nas letras, nos tambores, no ijexá, no afrobeat e naquela mistura que faz OQuadro dialogar com diferentes sonoridades sem deixar de ser Rap.
A Favela não precisa estar geograficamente presente para estar em movimento.

E quando o show chegou ao fim, OQuadro encerrou a noite com uma espécie de benção:
“Tá amarrado em nome do Quadro!”
Agora me diga:
isso não foi um culto?




