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Casa Cria

944 ônibus parados e um Subúrbio que não parou

A comunidade não aceitou ficar parada: vizinho deu carona a vizinho e milhares de pessoas chegaram à urna.

Por Nanda Coppieters Atualizada em 4 min de leitura 2 visualizações 0 curtidas 0 comentários
944 ônibus parados e um Subúrbio que não parou
Pantera

No domingo do segundo turno, 25 de outubro, o ônibus não passou no Subúrbio. Quem passou foi o vizinho de carro, a van, o desconhecido que parou no ponto e perguntou: "Vai votar? Entra aí."

O ônibus era para ser de graça, com a mesma quantidade de um dia de semana. Foi o que a Prefeitura de Salvador tinha prometido. Mas, desde cedo, Paripe, Periperi, Plataforma, São Caetano e tantos outros bairros viram pontos lotados e gente esperando por horas.

Esta é a história de como a comunidade não deixou o direito de votar ficar parado na garagem.

Os ônibus ficaram presos na garagem

Ônibus tinha. O problema é que eles ficaram parados. No fim da tarde, o Procon contou 944 ônibus parados em quatro garagens. Duas dessas garagens ficam aqui mesmo, no Subúrbio. Ou seja: o ônibus estava pertinho, mas não saiu para buscar o povo.

A Prefeitura disse que segurou pelo menos 75 ônibus por causa de adesivos de campanha colados neles. Depois, segundo o prefeito Bruno Reis, mandou soltar todos. Já o PT e outros partidos dizem que a Prefeitura atrapalhou o voto de propósito.

A Justiça Eleitoral mandou os ônibus voltarem para a rua, com multa de R$ 1 milhão para cada hora de atraso. Também mandou prender o secretário de Mobilidade, Pablo Souza. Na segunda-feira, a prisão foi cancelada. Mas a Polícia Federal vai investigar quem mandou deixar os ônibus parados e por quê.

O Subúrbio deu as mãos

Ninguém combinou nada antes. Tudo começou no zap, com vídeo de ponto lotado e vizinho avisando vizinho. Quem já tinha votado pegou o carro e saiu rodando pelos pontos, oferecendo carona.

• Grupo do bairro: voluntários fizeram um site que mandava cada pessoa para o grupo de zap do seu bairro. Eles acham que pelo menos 5 mil pessoas conseguiram votar assim.

• Gente de fora ajudando: motoristas de outros bairros vieram levar gente até São Caetano e Periperi. No meio da tarde, já tinha muito carro na rua oferecendo carona.

• Até de van: o deputado Pastor Sargento Isidório pegou uma van e rodou o Subúrbio levando eleitores.

• Combinado de respeito: primeiro as mulheres e os idosos. Ninguém cobra nada. Ninguém pergunta em quem você vai votar. E nada de adesivo, bandeira ou santinho no carro.

E funcionou. A grande maioria do povo do Subúrbio conseguiu votar. Veja quanta gente faltou em cada região:

• Plataforma e Lobato: 16 de cada 100 não votaram

• Paripe, Periperi e Coutos: cerca de 17 de cada 100 não votaram

• Valéria, São Tomé de Paripe e Ilha Amarela: 14 de cada 100 não votaram

Não tem como saber quantas pessoas teriam ficado sem votar se não fossem as caronas. Mas uma coisa é certa: muita gente só chegou na urna porque alguém da comunidade foi buscar.

Você tem direito ao ônibus no dia da eleição

Ônibus no dia da eleição não é favor. É obrigação. A Justiça já decidiu: no dia de votar, a Prefeitura não pode diminuir os ônibus.

Neste ano, a regra ficou ainda mais clara. O ônibus tem que ser de graça e tem que ter a mesma quantidade de um dia de semana. Quem tirar ônibus da rua pode responder por crime.

E a carona? Pode, sim. Desde que seja de graça e sem campanha: ninguém pede voto, ninguém pergunta em quem você vota e não tem propaganda no carro.

Ficou sem ônibus para votar ou viu alguma coisa errada? Você pode denunciar no Ministério Público Eleitoral ou na Defensoria Pública da Bahia, que atende de graça.

Ônibus é direito de quem mora longe

Quem mora longe do centro precisa do ônibus para tudo: trabalhar, estudar, ir ao posto de saúde e também votar. Quando o ônibus falta, quem sofre primeiro é a periferia. Quem tem carro dá um jeito. Quem não tem fica no ponto.

Hoje se fala muito em ESG, que é o compromisso de empresas e governos com o meio ambiente, com as pessoas e com fazer as coisas do jeito certo. Cuidar das pessoas inclui isso: uma cidade boa é aquela em que todo mundo consegue chegar aonde precisa, inclusive na urna.

O domingo deixou duas lições. Primeira: a Prefeitura tem que garantir o ônibus, e quem errou tem que responder. Segunda, a que veio das ruas do Subúrbio: quando a comunidade se junta, ninguém fica para trás.

Nanda Coppieters é advogada ambiental, mestra em Território, Ambiente e Sociedade e fundadora da Bioversa, com atuação em ESG, justiça climática e direitos comunitários.

Fontes: A Tarde, Agência Pública, Folhapress, Times Brasil, Aratu On, Gazeta do Povo, Nexo e Revista Fórum.

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