ESG não é coisa de empresa. É coisa da nossa gente.
Na estreia da coluna, Nanda Coppieters explica o que é ESG na linguagem do dia a dia e mostra que a favela já pratica sustentabilidade há muito tempo, mesmo sem usar a sigla.
Você já deve ter ouvido falar em ESG. A sigla aparece em relatório de banco, em propaganda de multinacional, em palestra de terno e gravata. Parece um assunto distante, feito para quem mora longe daqui. Mas deixa eu te contar um segredo: ESG fala da nossa vida. E a favela entende disso melhor do que muita empresa por aí.
ESG vem do inglês e quer dizer três coisas: Ambiental, Social e Governança. Traduzindo para o nosso dia a dia:
O ambiental é a água que chega (ou não chega) na torneira, o esgoto que corre a céu aberto, o calor que não deixa ninguém dormir, a chuva forte que vira medo de deslizamento.
O social é o direito à moradia digna, à saúde, à educação, ao trabalho. É a mãe que cria os filhos sozinha, o jovem que quer uma oportunidade, a comunidade que se organiza quando o poder público não aparece.
A governança é quem decide, como decide e se presta contas. É saber se a obra que chegou no bairro ouviu os moradores antes de começar.
Viu como não é coisa de outro mundo?
Quem paga a conta do clima
Existe uma expressão que precisa entrar no nosso vocabulário: racismo ambiental. Ela explica por que os problemas ambientais não atingem todo mundo do mesmo jeito. Quando a chuva chega, quais bairros alagam? Onde falta saneamento? Onde as casas ficam nas encostas? Quase sempre, nos territórios negros e periféricos.
Isso não é coincidência nem falta de sorte. É resultado de escolhas sobre onde se investe e quem se escuta. E se é escolha, pode ser mudado.
A favela já faz ESG, só não chama assim
Quando a vizinha organiza o mutirão de limpeza, isso é cuidado ambiental. Quando um coletivo oferece oficina para a juventude, isso é impacto social. Quando a associação de moradores reúne a comunidade para decidir junto, isso é governança. Quando um projeto como o Hub Casa Cria abre caminho para a tecnologia, a criatividade e a renda dentro do território, isso é desenvolvimento sustentável na prática.
A diferença é que, aqui, ninguém faz isso para ganhar selo ou melhorar a imagem. Faz porque precisa, porque se importa, porque é a gente por nós.
O que você vai encontrar nesta coluna
Aqui a gente vai conversar sobre clima, meio ambiente e direitos sem juridiquês e sem enrolação. Vou falar de temas como os direitos que a comunidade tem e muita gente não conhece; como cobrar o poder público e as empresas que atuam no território; justiça climática e o que as grandes decisões mundiais têm a ver com a nossa rua; oportunidades de renda com sustentabilidade, reciclagem e economia local; e histórias de quem já está transformando o território.
Sou advogada ambiental e trabalho há anos com comunidades, especialmente com mulheres que seguram tudo nas costas e ainda encontram força para cuidar do coletivo. Aprendi com elas que sustentabilidade de verdade começa por quem vive o território.
Então fica o convite: esta coluna também é sua. Manda sua dúvida, sua história, sua denúncia, sua ideia. Porque, como diz o Papo de Favela, é a gente que faz acontecer.
MINIBIO
Nanda Coppieters é advogada ambiental, mestra em Território, Ambiente e Sociedade e cofundadora da Bioversa, com atuação em ESG, justiça climática e direitos comunitários.
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